Saúde da mulher
Testosterona na perimenopausa e no climatério
A testosterona pode ajudar algumas mulheres com um problema específico de desejo sexual após a menopausa. Isso não significa que toda mulher no climatério precise repor esse hormônio. A indicação reconhecida pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) é o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, depois de uma avaliação clínica cuidadosa. [1]
O que você vai encontrar
- A indicação reconhecida pela SBEM e os limites na perimenopausa
- O benefício esperado e o que a testosterona não deve prometer
- Riscos, exames e acompanhamento do tratamento
Perimenopausa menopausa e climatério
O climatério corresponde à transição da fase reprodutiva para a não reprodutiva. A perimenopausa abrange as mudanças que antecedem a última menstruação e se estende até um ano depois dela. A menopausa natural é reconhecida após 12 meses consecutivos sem menstruar, sem outra causa que explique essa ausência. A pós-menopausa é a fase seguinte. [6]
Essas diferenças importam porque os melhores dados sobre testosterona se referem à pós-menopausa. Não se deve estender automaticamente uma indicação estudada nessa fase a todas as mulheres que começam a apresentar irregularidade menstrual. [3]
A indicação reconhecida pela SBEM
A nota conjunta da SBEM, FEBRASGO e Sociedade Brasileira de Cardiologia, publicada em dezembro de 2025, reconhece uma única indicação: tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) em mulheres na pós-menopausa, após diagnóstico clínico e exclusão de outras causas. [1]
O TDSH envolve redução persistente ou recorrente do desejo sexual que provoca sofrimento relevante para a própria mulher. Variações normais de interesse, diferenças de desejo no casal ou uma frequência sexual menor, isoladamente, não estabelecem o diagnóstico. [4]
O que muda na perimenopausa
O consenso global considera insuficientes os dados para recomendar testosterona antes da menopausa. A diretriz internacional ISSWSH admite considerar casos selecionados de TDSH no fim da fase reprodutiva, com base em evidência limitada. Essa possibilidade não corresponde à indicação reconhecida na nota da SBEM, que se restringe à pós-menopausa. [1,3,4]
Até onde vão os benefícios
Em mulheres na pós-menopausa com TDSH, os estudos mostram melhora moderada do desejo, da excitação, do prazer e da função orgásmica, com redução do sofrimento relacionado à sexualidade. Uma revisão de 36 ensaios clínicos, envolvendo 8.480 participantes, encontrou benefícios nesses aspectos da função sexual. [5]
Para dimensionar o resultado, o consenso global descreve, em média, cerca de uma experiência sexual satisfatória adicional por mês em comparação com placebo ou tratamento comparador. Essa é uma média de pesquisa, não uma promessa individual nem uma meta de frequência sexual. O objetivo clínico é melhorar o bem-estar sexual da mulher e reduzir o sofrimento que ela relata. [3,5]
Quando o tratamento pode ser considerado
A avaliação começa pela história dos sintomas, pelo impacto na vida da mulher e pela investigação das causas que podem reduzir o interesse sexual. Antes de considerar testosterona, a SBEM orienta avaliar e tratar baixa de estrogênio, sintomas geniturinários da menopausa, depressão, efeitos de medicamentos e fatores psicossociais ou do relacionamento. [1]
Dor na relação, ressecamento vaginal, sono ruim, anemia ou alterações da tireoide também podem interferir na sexualidade. O cuidado deve abordar essas condições conforme a necessidade. Antidepressivos e outros medicamentos não devem ser suspensos por conta própria. [4]
Se o TDSH persistir na pós-menopausa, a decisão sobre um teste terapêutico deve considerar as preferências da mulher, os riscos individuais e a possibilidade de acompanhamento. O benefício esperado é específico; ter chegado à menopausa ou apresentar um exame baixo não basta para indicar o tratamento. [2,3]
O que a testosterona não deve prometer
A nota da SBEM não respalda testosterona para emagrecimento, ganho de massa muscular, melhora de disposição ou rejuvenescimento. Também não a indica para prevenção cardiovascular. [2]
A Endocrine Society recomenda contra seu uso geral para melhorar cognição, saúde metabólica, saúde óssea ou bem-estar. Assim, cansaço, dificuldade de concentração e mudanças no corpo merecem investigação própria, sem pressupor falta de testosterona. [9]
Ondas de calor, insônia e ressecamento vaginal têm alternativas de tratamento hormonais e não hormonais, escolhidas conforme os sintomas e o histórico de saúde. A testosterona não é um tratamento geral para o climatério. [6,9]
Recomendação médica e aprovação pela Anvisa
A SBEM emite recomendações científicas; a aprovação regulatória de medicamentos cabe à Anvisa. As notas brasileiras consultadas informam que não há formulação de testosterona aprovada no Brasil especificamente para uso em mulheres. Portanto, indicação reconhecida pela SBEM não significa medicamento aprovado em bula para essa finalidade. [1,2]
Quando um produto é prescrito fora da indicação aprovada em sua bula, esse uso é chamado off-label. Isso exige esclarecer benefícios, riscos e incertezas e registrar a decisão compartilhada. As diretrizes internacionais favorecem a via transdérmica, com dose individualizada para manter concentrações fisiológicas femininas. Implantes, injeções e produtos manipulados não são recomendados pela diretriz ISSWSH. [4]
O exame baixo não define a necessidade de reposição
Não existe um valor de corte validado para diagnosticar deficiência de testosterona feminina ou explicar, sozinho, a baixa libido. A SBEM desaconselha dosagens de rotina para procurar essa suposta deficiência. Na menopausa natural, a testosterona não sofre a queda abrupta que costuma ocorrer com o estrogênio. [2]
Isso é diferente do acompanhamento de segurança de um tratamento já indicado. A SBPC/ML reconhece a utilidade da dosagem para evitar excesso hormonal durante a terapia. Os resultados precisam ser interpretados conforme o método do laboratório, o produto e o momento da aplicação. A intenção é prevenir doses excessivas, não perseguir um número para melhorar o desejo. [7]
Riscos e limites de segurança
Acne e aumento de pelos podem ocorrer mesmo com doses fisiológicas. Com exposição excessiva, podem surgir queda de cabelo, aumento do clitóris e engrossamento da voz, alterações que podem ser irreversíveis. Os riscos variam conforme dose, formulação e condições de saúde. [2,3,5]
O consenso global destaca que faltam dados robustos de segurança além de 24 meses e que mulheres com alto risco cardiometabólico foram pouco representadas nos estudos. Não se pode garantir segurança cardiovascular ou mamária no longo prazo. [3]
Gestação ou possibilidade de engravidar exigem atenção: testosterona não deve ser usada na gravidez e não funciona como anticoncepcional. Histórico de câncer sensível a hormônios exige avaliação com a equipe responsável. [4,6]
Como acompanhar e quando suspender
O acompanhamento inclui resposta clínica e sinais de excesso hormonal. As diretrizes orientam dosagem antes do início e nova avaliação em 3 a 6 semanas; depois, controles periódicos, em geral a cada 4 a 6 meses. Exames hepáticos e de colesterol integram a avaliação inicial. Se não houver benefício significativo até seis meses, o tratamento deve ser suspenso. A continuidade exige reavaliação individual. [3,4]
Procure avaliação médica se os sintomas do climatério ou as mudanças no desejo sexual estiverem afetando sua qualidade de vida. Leve a lista dos medicamentos e hormônios em uso. Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta.
Próximo passo
Converse sobre os sintomas e suas dúvidas
Procure avaliação médica para investigar os sintomas, revisar medicamentos e discutir as opções de cuidado. A indicação de qualquer tratamento depende da consulta.
Perguntas frequentes
Quando a testosterona pode ser considerada para mulheres?
A SBEM reconhece seu uso para o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, após diagnóstico clínico e avaliação e tratamento de outras causas. Entrar no climatério, por si só, não indica reposição. [1]
Quem ainda menstrua ou está na perimenopausa pode usar testosterona?
Os dados antes da menopausa são limitados. A ISSWSH admite considerar casos selecionados de desejo sexual hipoativo no fim da fase reprodutiva, mas a indicação reconhecida na nota da SBEM se restringe à pós-menopausa. Não é um tratamento de rotina da perimenopausa. [1,3,4]
Baixa libido ou um exame baixo significam deficiência de testosterona?
Não. Não há valor de corte validado para diagnosticar deficiência de testosterona feminina. O diagnóstico do transtorno do desejo é clínico e considera o sofrimento da própria mulher, medicamentos, sintomas e fatores psicossociais. Um resultado isolado não justifica prescrição. [1,2,4]
Quais benefícios podem ser esperados no desejo sexual?
Em mulheres na pós-menopausa com o diagnóstico indicado, pode ocorrer melhora moderada do desejo, da satisfação sexual e do sofrimento relacionado à sexualidade. A resposta varia, e os resultados médios dos estudos não são uma promessa individual nem uma meta de frequência sexual. [3,5]
A testosterona é indicada para emagrecer, ganhar músculos ou melhorar a disposição?
Não. A SBEM não respalda o uso para emagrecimento, ganho de massa muscular, disposição ou rejuvenescimento. Cansaço e mudanças no corpo precisam de avaliação própria. [2,9]
Existe testosterona aprovada pela Anvisa especificamente para mulheres?
As notas brasileiras consultadas informam que não existe formulação aprovada no Brasil especificamente para uso feminino. A indicação científica reconhecida pela SBEM é diferente da aprovação em bula; o uso fora da bula é chamado off-label e exige discussão dos benefícios, riscos e incertezas. [1,4]
Chips hormonais e testosterona manipulada são recomendados?
A nota da SBEM desaconselha implantes manipulados. A diretriz ISSWSH também não recomenda pellets, injeções ou formulações manipuladas de testosterona, por limitações de qualidade, controle da exposição e dados de segurança. O tratamento exige escolha médica e acompanhamento individual. [1,2,4]
Quais são os principais efeitos adversos?
Podem ocorrer acne e aumento de pelos. A exposição excessiva pode provocar queda de cabelo, aumento do clitóris e engrossamento da voz, com alterações potencialmente irreversíveis. A segurança cardiovascular e mamária no longo prazo não está estabelecida. [1,3]
É necessário acompanhar os níveis de testosterona durante o tratamento?
Quando o tratamento está indicado, a dosagem ajuda a evitar exposição excessiva; não serve para perseguir um número que garanta desejo sexual. As diretrizes orientam avaliação antes do início, nova dosagem em 3 a 6 semanas e controles periódicos durante o acompanhamento. [3,4,7]
Quando suspender se não houver melhora?
Se não houver benefício significativo até seis meses, as diretrizes recomendam suspender o tratamento. Efeitos adversos ou sinais de excesso hormonal exigem reavaliação médica, sem esperar esse prazo. A continuidade depende do benefício e dos riscos individuais. [3,4]
Referências
Conteúdo educativo elaborado com base em fontes institucionais de saúde:
- [1] SBEM FEBRASGO e SBC. Nota conjunta sobre o uso de testosterona na mulher. Dezembro de 2025. Nota oficial disponibilizada pela SBEM
- [2] SBEM FEBRASGO e DCM da SBC. Nota conjunta sobre o uso de testosterona na mulher. 3 de maio de 2025. Texto no portal da SBEM
- [3] Davis SR et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. JCEM. 2019;104:4660–4666. DOI 10.1210/jc.2019-01603. Consenso global completo
- [4] Parish SJ et al. ISSWSH Clinical Practice Guideline for the Use of Systemic Testosterone for Hypoactive Sexual Desire Disorder in Women. J Womens Health. 2021;30:474–491. DOI 10.1089/jwh.2021.29037. Diretriz clínica completa
- [5] Islam RM et al. Safety and efficacy of testosterone for women. Lancet Diabetes Endocrinol. 2019;7:754–766. DOI 10.1016/S2213-8587(19)30189-5. Resumo da revisão sistemática
- [6] Organização Mundial da Saúde. Menopause. Ficha informativa. Definições e cuidados na menopausa
- [7] SBPC/ML. Posicionamento oficial sobre aspectos técnicos laboratoriais da dosagem de testosterona em mulheres. Maio de 2025. Orientações laboratoriais
- [8] Anvisa. Reposição de testosterona não é obrigatória para mulheres. 7 de agosto de 2026. Leitura complementar. Alerta à população
- [9] Endocrine Society. Androgen Therapy in Women A Reappraisal. Diretriz clínica. 2014. Recomendações da sociedade
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